O lado B da noite de BH


Revista Encontro - É sexta-feira, pouco mais de me­ia-noite. A fila de entrada da bo­ate Mary in Hell dobra à esquina entre as ruas Tomé de Souza com Pro­fes­sor Moraes na movimentada Savassi. A cena alternativa na ca­pital nunca esteve tão em alta, badalada e bem vista como agora, os es­paços se tornaram referência para a comunidade antenada em música de diferentes estilos, cultura outsider, universo pop- rock, eletro.

Os lugares, quase sempre situados em prédios ou casarões antigos, são na maioria das vezes apertados sem muito conforto, com iluminação baixa, num estilo urbano e cosmopolita. Atraem o público que quer curtir uma noite diferente do mas­sificado batidão da música eletrônica nas boates convencionais, que não perderam seu lugar, mas agora, dividem o gosto da galera nas noites da cidade, mostrando que a onda do alternativo veio pra ficar.

A música é o principal atrativo desses lugares, de Gretchen (Conga La Conga) a Shakira (Estoy aqui), pas­sando por Sidney Magal, pelos funks que embalaram o Brasil no início dos anos 2000 e até, acreditem, por Lua de cristal, da Xuxa. Essas pé­­rolas revivem na pista, matando a saudade da infância e da adolescência, e põe a galera pra dançar e cantar. “A ideia é fa­zer uma noite sempre mais intimista, parecendo uma festinha em casa, porém um pouco maior e com um tipo de som que aproxima muito as pessoas”, explica Luciano Au­gus­to, DJ e sócio da Velvet Club.

A mistureba total não é só da música, o público também se mistura. Seguindo o estilo friendly (amigável, em português), já bem famoso no Estados Unidos, várias tribos alternativas compartilham a pista e o som na mai­or harmonia, o que va­le é a di­versão, respeitar os estilos e diferen­ças, sem brigas. “Nesse estilo todo mun­do se dá bem e se respeita”, con­ta Lucas Al­meida, um dos proprietários e DJ da Mary in Hell.

Luciana Souza Simão, 22 anos, veio de São Paulo especialmente para se encontrar com amigos de BH e a balada escolhida por todos foi a Mary in Hell. Neta do artista Mau­rício de Souza e filha da mulher que inspirou a personagem Magali, Lu­ciana resume o que a atrai nesse tipo de lugar: “A gente adora essa bagunça, o pessoal diferente, e to­das as misturas inusitadas. É tudo ótimo”.

O estudante de jornalismo e fre­quentador dos “inferninhos” La­y­on Araújo, 22 anos, também de­fen­de seu gosto “pelo público alternativo e pelas músicas de diferentes es­tilos". Sobre o aspecto de interação, completa: "Aqui me sinto livre, a e­ner­­gia da galera é muito positiva e sem­pre me divirto."

De olho na boa aceitação do pú­blico, que varia de 18 a 50 anos, essas casas criam festas diferentes e com nomes que realmente chamam a atenção: Adeus Dercy, Ménage a trois, Safadezas e até um Baile dos solteiros. Tu­do, claro, com espírito de brincadeira. Entre as personalidades que já deram as caras em BH estão o apresenta­dor da MTV João Gordo, a eterna rainha do bum­bum Rita Cadillac e Zé do Cai­xão.

Apesar da fama de vale-tudo, nes­se tipo de lugar a realidade não é bem assim na Velvelt Club e na Obra as regras são bem claras: nada de drogas, serviço ruim ou ambiente sujo. “Não é porque se trata de um “inferninho” que é preciso be­ber cerveja e morrer de ca­lor em um ambiente quente. A ca­sa tem um cardápio variado de bebidas e conta com uma seleção excelente de cervejas importadas e sistema de ar condicionado”, ex­pli­ca Bru­­­na Mi­randa, sócia da boate Vel­vet Club.

Quem entende de pick-up feito a palma da mão, como o conhecido DJ Robinho, famoso na capital com os seus remixes de house e tecno, e na estrada há quase 20 anos, conta que é preciso inovar para a balada não se tornar uma rotina. “Todo mundo já está fazendo música eletrônica em BH, não podemos fazer igual, precisamos de algo diferente”, dispara Ro­binho. Tocar música dos anos 80 e 90 representa algo totalmente diferente em sua trajetória musical e ele abriu mão de tocar somente seu estilo preferido para se arriscar em ou­tra atmosfera tão promissora quan­to a que fez de seu nome uma re­ferência. “É muito fácil tocar o pop, porque é comercial e conhecido, além do que rola uma sincronia entre o lugar, o público e a música. Eu torço para que todo mundo que toca na noite traga um pouco mais de novidade para a pista, coisa boa: um lado B”, explica Robinho. Ele diz que bai­xa poucas coisas da internet: pega os próprios discos e passa para o computador. “Até gostaria de tocar o disco de vinil mesmo, mas o espaço dentro da cabine não comporta e daria mais trabalho” explica.

Um dos diferenciais dessas ca­sas é que os DJs muitas vezes não são profissionais, fazem por hobby, usam mui­to do seu estilo próprio e de ser bá­sico para bombar na pista. A prova de que se pode fazer a galera vibrar com o som sem precisar trazer para a pis­ta um DJ internacional e famoso é Luí­sa Reiff, co­nhecida na noite também como LuHell. A morena notável de 19 anos é DJ há um ano e se veste sempre para ser notada; roupas num es­tilo vintage, salto alto e cabelos 4 revoltos. Na pista ela to­ma posse de uma taça de espumante, ci­garro e sobe na pick-up sem muita preocupação “O lan­ce é sentir o público e o que eles es­tão gos­tando de ou­vir. Na noite alternativa a galera está mais disposta não só a dançar os hits atu­ais, mas também a se di­vertir com músicas an­tigas. O sucesso está em se adequar ao público, sentir a vibração e só depois definir as músicas”, conta Luísa.

A trilha embalada por melodias inesquecíveis dos anos 80, mescladas com ritmos atuais não fica só dentro dessas boates, virou festa e das mais concorridas. O nome é Camarim, fortemente inspirada na Bailinho, festa que agita a noite carioca e conta com a presença de uma legião de famosos e anônimos em busca de boa música, simplicidade nas pick-ups e brincar de ser DJ por um dia. O que vale é reunir os amigos, cantar o refrão daquela música que você ado­ra, mas não escutava há muitos anos.

O projeto da Camarim, que surgiu para agitar as tardes mornas dos domingos na capital, foi criado por quatro amigos que se surpreenderam com a aceitação e sucesso. Ícones da música como Michael Jack­son, Ma­donna, AC-DC, Rolling Stones dividem espaço com hits como Chorando se foi (Kaoma) e Uma noite e meia (Marina Lima), por exemplo. “É sem preconceito mesmo. Po­der tocar todas as músicas sem pudor algum é maravilhoso. Todo mundo está cansado de música eletrônica e tudo que é diferente, básico e que remete a uma nostalgia, está na moda”, conclui a DJ Sininho, uma das idealizadoras da festa Camarim.


*** Por Guilherme Torres especial para a Revista Encontro.



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