Crítica: Adeus, Lenin!


Adeus Lênin é uma analogia do processo histórico que acometeu a Alemanha Oriental e resultou na unificação com a Alemanha Ocidental, marcando a queda definitiva do socialismo e o nascimento de uma nova ordem mundial em detrimento da antiga ordem bipolar.
A película, com trilha sonora intensa, montagem de qualidade e um roteiro esplendoroso, que diz mais em momentos que inclusive não há falas, começa com a “traição” do pai do protagonista, que vai para o lado ocidental, traindo também a pátria e os camaradas. A partir desse momento a mãe “casa” com o partido comunista e se torna uma cidadã exemplar, envolvida em inúmeras atividades sociais e recebendo uma medalha de reconhecimento do governo, portanto, na visão do filho, o comunismo é tudo que sobrou para ela, algo que a distraia e evitava pensar no marido.
Governos totalitários, por não terem o reconhecimento institucional do povo pela democracia, necessitam de estarem a todo tempo mostrando poder, geralmente através do terror, violentando os cidadãos do próprio pais que buscam direitos legítimos, como a liberdade de imprensa, por exemplo. O governo comunista da URSS, que controlava a Alemanha Oriental, instituía até mesmo a obrigatoriedade do estudo da língua russa nas escolas alemãs, evidenciando a sua faceta totalitária mascarada pelo comunismo, mas que na verdade nunca chegou perto disso. Diante dessa visão a mãe do protagonista o flagra sendo preso e, devido ao choque, tem um enfarte que a deixa em coma, fazendo com que Alex Kerner se sinta ainda mais culpado pela situação debilitada de sua amada mãe comunista.
Devido ao coma, a Sra. Kerner não acompanha os momentos crucias que o seu pais vivia, que, influenciado pela abertura econômica e transparência política – Perestroika e Glasnost – da URSS e no posterior desmantelamento da mesma, começa um profundo processo de abertura, culminando na queda do muro de Berlim, na derrocada do comunismo e na irremediável entrada do capitalismo e posteriormente na reunificação das Alemanhas.
Quando ela finalmente desperta do coma ,a Alemanha Oriental está nesse profundo processo, com a invasão de marcas capitalistas como a Coca-Cola e o Burguer King, que inclusive colocam muitos alemães desempregados, provoca uma migração em massa para o lado ocidental e aponta para o mundo a fragilidade do leste europeu; diante disso Alex Kerner, temendo que a debilitada Sra. Kerner possa enfartar novamente, decide esconder a realidade dela. É nesse momento que a casa da família deles se transforma num refugio comunista, com marcas já extintas, modas e aparelhos antigos, e inclusive um noticiário produzido por ele e por seu colega de profissão fabricando falsas notícias, tudo isso para protegê-la e iludi-la da maquina capitalista que avançava “impiedosamente” sobre a tímida, arcaica e fragilisada Alemanha Oriental.
Conduzindo a histórica com leveza, Wolfgang Becker, cineasta responsável pela película, ilustra o árduo processo de re-unificação e a importância do futebol – não é só o Brasil que tem esse instrumento – na re-criação da identidade nacional alemã, fragmentada pelos anos de controle dos paises aliados do ocidente – França, EUA e Inglaterra – e pela URSS. O banner da Coca-Cola descendo lentamente o prédio, invadindo o “refúgio comunista dos Kerners”, simboliza os novos tempos, passando por cima dos mais conservadores, e se transforma em uma das cenas de genialidade propiciadas por Adeus Lênin; ilustrando mais uma vez o processo de re-unificação e da entrada do capital ocidental.
É nesse ambiente que sentimos quem verdadeiramente se refugia do processo, na verdade a Sra. Kerner a todo momento se mostra ávida por novidades, enquanto seus filhos e alguns amigos se sentem reconfortados na tranqüilidade do que já fora, num passado fabricado que não mais existe, onde poderiam esquecer a movimentação e a agilidade do capitalismo. O ambiente externo simboliza a modernidade, enquanto o apartamento dos Kerners se torna um lugar esquecido pela maquina capitalista, quase um museu, mostrando que, inclusive os que sabiam da realidade, preferiam, mesmo que por breves momentos, acreditarem que o passado ainda era realidade.
O filme prossegue, Alex e sua irmã descobrem, pela confissão da Sra. Kerner, de que o pai deles de fato não fora nenhum traidor. O filme termina com ela tendo mais um enfarto, reencontrando o ex-marido e depois descobrindo a verdade, mas fingindo não saber, e assiste a um “noticiário” produzido pelo filho. Fica claro que ela olha orgulhosamente para ele, em tom de agradecimento e reconhecimento do talento do mesmo, que contou uma mentira tão boa que ele mesmo acreditou, uma mentira melhor do que a realidade do capitalismo e do que o comunismo que nunca existiu, talvez apenas na cabeça de Alexander Kerner.
A imagem do busto de Lênin sendo carregada por um helicóptero simboliza toda a pretensão do filme, fazendo um honroso “Adeus Lenin”.


Trailer legendado.


1 comentários:

brunabora disse...

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